top of page

Afeganistão e a segunda tomada de poder do Talibã.

  • 24 de set. de 2021
  • 4 min de leitura

Atualizado: 25 de set. de 2021

Por Luciana Reses



A primeira tomada do Afeganistão pelo Talibã ocorreu em 1996 com a conquista da capital, Cabul, e durou até outubro de 2001 com a invasão dos Estados Unidos após o ataque de 11 de setembro. Desde então o país enfrenta conflitos internos e externos, principalmente com os Estados Unidos e grupos rebeldes, como sempre, aqueles que mais sofrem são os civis. Em agosto de 2021 o mundo concentrou sua atenção no Afeganistão, que sofria a segunda tomada do país pelo Talibã.

Pela primeira vez em vinte anos, os Estados Unidos retiram suas tropas do Afeganistão, um processo que começou durante o governo Trump e terminou em agosto deste ano. À medida que as tropas saíam, o Talibã avançou e conquistou cidades, causando conflitos que culminaram no desastre econômico, humanitário e político que acompanhamos nas últimas semanas. Em Cabul, os relatos são de que, desde o Talibã, as obras de construção civil pararam, não há oferta de empregos e as famílias de militares não recebem mais pensão, os afegãos vendem seus pertences para conseguir prover para suas famílias ou para tentar deixar o país (EL PAÍS, 2021). A ONU declara que, se a situação não melhorar, até meados do ano que vem, 97% da população afegã terá de sobreviver com menos de dois dólares por dia (EL PAÍS, 2021).

O regime do Talibã é marcado pelo autoritarismo e conservadorismo extremo, é o governo dos homens. Além de ser um regime extremamente violento corroborado pelo sistema judicial, impõe limitações especiais às mulheres, onde a existência feminina é restrita ao lar, sua presença pública deve ser coberta pela burca e acompanhada do marido, já as garotas não frequentam a escola. A população não assiste pacientemente ao crescimento do Talibã, mulheres afegãs realizam protestos para reivindicar seus direitos e evitar que sejam submetidas às leis que as limitavam entre 1996 e 2001. Além disso, houve resistência por parte das forças anti-talibãs que pediram à comunidade internacional que não reconhecesse o novo governo. Além disso, ocorreram protestos em Cabul a fim de denunciar a intromissão do Paquistão, que supostamente tenta governar o Afeganistão através do Talibã, e também dar visibilidade à situação no Vale de Panjshir, província que ainda resiste ao Talibã (AGÊNCIA BRASIL, 2021).

O Talibã afirma que governará de forma moderada e que não haverá retaliações para aqueles que serviram ao governo anterior de Ashraf Ghani, apoiado pelos EUA. Os estudiosos do Oriente Médio apresentam receio quanto à essas declarações, afirmam que é um mero discurso, e a população apresenta um clima de receio e medo de sair na rua. Segundo o cientista político João Paulo Nicolini Gabriel, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o Afeganistão é um país majoritariamente rural, e partes dele sempre estiveram sob o comando do Talibã, essas áreas não olhavam com bons olhos para o governo central, pois não se sentiam representados e devidamente atendidos. O cenário atual reflete na incompetência estadunidense em atingir os objetivos vinculados à sua presença no país (AGÊNCIA BRASIL, 2021).

De acordo com cientistas de geopolítica e relações internacionais, no que tange aos desdobramentos desse novo governo, acredita-se que tudo depende da atuação da China, que já reconhece o governo do Talibã, e dos Estados Unidos. Segundo Fernando Luz Brancoli, pesquisador e professor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é necessário entender o papel dos EUA, Rússia e do gigante asiático, este último muito provavelmente vai negociar com o Talibã. De acordo com Nicolini, a tomada de poder no Afeganistão implica em mudanças na situação regional da Ásia central, principalmente nas relações com o Paquistão, que nos anos 90 foi um dos poucos países a manter relações com o Afeganistão, e a Índia, não tão satisfeita com a saída das tropas estadunidenses. Ambos os países possuem uma relevante influência local.

REFERÊNCIAS


ESPINOSA, ÁNGELES. O mercado que surgiu do desespero em Cabul. El País, 2021. Disponível em <https://brasil.elpais.com/internacional/2021-09-15/o-mercado-que-surgiu-do-desespero-em-cabul.html> Acesso em 20 de setembro de 2021.

ESPINOSA, ÁNGELES. De volta ao Afeganistão dos Talibãs. El País, 2021. Disponível em <https://brasil.elpais.com/internacional/2021-09-08/de-volta-ao-afeganistao-dos-talibas.html> Acesso em 20 de setembro de 2021.

ESPINOSA, ÁNGELES. A ideologia do Talibã: uma mistura de fundamentalismo islâmico e costumes pashtuns. EL País, 2021. Disponível em<https://brasil.elpais.com/internacional/2021-09-07/a-ideologia-do-taliba-uma-mistura-de-fundamentalismo-islamico-e-costumes-pashtuns.html > Acesso em 20 de setembro de 2021.

Linha do tempo: da insurgência ao poder, a história do Talibã no Afeganistão. CNN, 2021. Disponível em <https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/linha-do-tempo-da-insurgencia-ao-poder-a-historia-do-taliba-no-afeganistao/> Acesso em 20 de setembro de 2021.

Por que os Estados Unidos retiraram suas tropas do Afeganistão?. Hoje em Dia, 2021. Disponível em <https://www.hojeemdia.com.br/primeiro-plano/mundo/por-que-os-estados-unidos-retiraram-suas-tropas-do-afeganist%C3%A3o-1.850869> Acesso em 20 de setembro de 2021.

Quem são os talibãs e o que muda no Afeganistão após assumirem o poder? Hoje em Dia, 2021. Disponível em <https://www.hojeemdia.com.br/primeiro-plano/mundo/quem-s%C3%A3o-os-talib%C3%A3s-e-o-que-muda-no-afeganist%C3%A3o-ap%C3%B3s-assumirem-o-poder-1.850861 > Acesso em 20 de setembro de 2021.

RODRIGUES, LEO. Cientistas veem China com papel central e não creem em Talibã moderado, Agência Brasil, 2021. Disponível em <https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2021-08/cientistas-veem-china-com-papel-central-e-nao-creem-em-taliba-moderado > Acesso em 20 de setembro de 2021.

Forças anti-talibãs pedem que novo governo não seja reconhecido. Agência Brasil, 2021. Disponível em <https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2021-09/forcas-antitalibas-pedem-que-novo-governo-nao-seja-reconhecido> Acesso em 20 de setembro de 2021.

Talibã reprime protesto por direitos das mulheres em Cabul. G1, 2021. Disponível em<https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/09/05/afeganistao-taliba-reprime-protesto-por-direitos-das-mulheres-em-cabul.ghtml> Acesso em 20 de setembro de 2021.

 
 
 

Comentários


bottom of page